Divulgar a quantidade de horas em projetos fechados
No que se refere à forma de contratação, podemos classificar projetos de desenvolvimento de software em dois tipos principais:
a) Projetos abertos: o fornecedor cobra x reais por hora de serviço prestado de um determinado perfil técnico.
b) Projetos fechados: o cliente determina um escopo e o fornecedor cobra x reais pelo "produto", dentro de um prazo combinado.
A diferença entre os dois tipos de contratação vai muito além do cálculo do preço. Existem diferenças nas expectativas, nos riscos, na forma de trabalho e na garantia.
Não se pode dizer que um tipo é melhor que o outro, pois depende de cada situação. Se o cliente tiver o escopo bem definido, pode valer mais a pena fazer um projeto fechado. Se o escopo não for claro, um projeto aberto é a melhor (para não dizer a única) solução.
Para o fornecedor de serviços, vender projetos abertos diminui bastante o risco, pois sua responsabilidade maior será garantir a qualidade do serviço prestado nas horas que vendeu. O risco de estouro de custo é do cliente.
Por outro lado, são os projetos fechados que possibilitam ao fornecedor ter ganhos maiores (e também perdas, obviamente). Se ele tiver boa produtividade interna, conseguirá vender projetos a preços competitivos e ter um ganho superior ao que teria se vendesse apenas as horas. E para o cliente existe a vantagem de não assumir riscos de custo, já que o preço é fixo.
A rigor, o objeto da venda é diferente em cada tipo: num projeto fechado, vende-se uma entrega, um "produto"; num projeto aberto, vendem-se horas, mão-de-obra (e não o "produto" que vai ser criado com o uso destas horas).
O que tenho visto no mercado, em algumas grandes empresas, é a confusão dos conceitos. Tem sido comum clientes pedirem propostas com preços fechados e, na fase de negociação (ou mesmo antes disto), exigirem que o fornecedor informe quantas horas vai consumir no projeto.
Ora, esta informação tem natureza de segredo industrial e não deveria ser solicitada, até por questões éticas. Por isto, não há problema algum o fornecedor recusar abrir estes números.
Imaginem, por exemplo, que eu vá comprar 20 monitores para a minha empresa. Eu vou contratar um fornecedor que tenha preço, qualidade e prazo que me satisfaçam, e só. Não faz sentido eu exigir que ele me informe quantas horas vai gastar na fabricação, já que isto é segredo dele. Se ele tiver investido em equipamentos, tecnologia e pessoal que lhe permitam fabricar meu pedido em pouco tempo, melhor para ele, terá seu investimento recompensado.
A mesma regra vale para fabricantes de software: se a empresa investiu em equipe, treinamento, componentes, automatização e tecnologia que lhe permitam desenvolver um software em pouco tempo, não faz sentido ela ter que divulgar para quem quer que seja a sua real produtividade e seus custos internos de produção. Isto é um segredo industrial seu.
Assim, se você é um desenvolvedor ou uma empresa que vende projetos fechados, não há nada de errado em não divulgar a quantidade de horas. É um segredo do seu ofício, da sua forma de trabalhar. E pior: certamente esta informação só será usada contra você, nunca a seu favor. Limite-se a discutir prazo, qualidade e preço.